quinta-feira, dezembro 14, 2006

As pessoas como elas são, mas que nem por isso aparecem nos anúncios da TMN

Eles fazem xixi na rua, como os cães, encostados à parede de um prédio qualquer. Comentam tudo, desde o Sócrates ao Benfica, passando pelo Iraque, pela gripe das aves, pela escola, pela droga, pelos paneleiros. Têm opiniões e manifestam-nas publicamente, nos autocarros, no metro, nas filas do supermercado. Pouco percebem das coisas. Pedem subsídios por causa de não terem um emprego que rejeitaram, pedem subsídios por causa da seca que afecta terras que não têm, por causa das cheias que afectam casas em que não moram. Elas discutem com as empregadas dos supermercados, gritam com os motoristas dos autocarros, são profundamente infelizes, não têm objectivos na vida, dizem mal do marido a todas as pessoas mas não admitem que outras pessoas digam mal deles. Cospem no chão. Todos. As filhas já não "masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada", mas chupam lubricamente chupa-chupas nos centros comerciais enquanto falam gritando umas com as outras. Ordinariamente, fazem um rabo-de-cavalo de um cabelo lambido com azeite (será mesmo, ou é apenas sujo?) e mostram as proeminentes barrigas na larga faixa descoberta que vai da cintura das calças ao início das t-shirts. À mínima contrariedade, põem a mão na anca e discutem. Os filhos balançam para esquerda e para a direita enquanto andam, como se tivessem uma perna mais curta que a outra. Arrastam calças larguíssimas e usam grossas correntes ao pescoço, que balançam ao sabor do corpo. Usam bonés e mandam piropos pouco felizes para as mulheres que passam.


Onde é que cabe esta gente nos anúncios da TMN? Sim, esta gente, a da vida "como ela é"?

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Quem és tu, Luísa?


Algures no seu passado a Luísa há-de ter sido feliz. Há-de não ter tido aquela cara fechada, aquele olhar magoado. Num tempo que deve já ser distante, tamanho é o rigor da sua expressão, aqueles dentes brancos da Luísa hão-de ter-se orquestrado num bonito sorriso ou talvez até em ruidosas gargalhadas e os seus ouvidos hão-de ter de certeza sentido a leveza de algumas metáforas já gastas sobre o amor. Invariavelmente, nas reuniões de condomínio, ponho-me a imaginar o passado da Luísa. Quem terá sido ela? Quem foi ela até chegar ao T1 que habita no primeiro andar? Quem foi ela até ser roupa interior negra estendida ordinariamente aos domingos de manhã que a lixívia que eu exageradamente deito na toalha da mesa já manchou seguramente?

Hoje acordei tarde, porque era feriado. A Luísa descia a rua para ir ao caixote do lixo. Ao deitar os sacos, as chaves de casa caíram dentro do contentor. A cara que ela ergueu naquele momento era uma cara aterrada. De onde vem esse terror, Luísa, de onde? Olhou, como uma cria abandonada, à sua volta, antes de mergulhar os olhos novamente dentro do contentor. Estava vazio. No fundo, deviam brilhar as suas chaves. Ergueu novamente uma face lívida, prenhe de angústia. Quem és tu, Luísa? Tu és nojo de meter as mãos no lixo? Ou serás apenas vergonha? Com a ajuda de um cabide que rapidamente foi buscar a casa, recuperou a chave. A face que ergueu era semelhante a uma qualquer flor primaveril, decerto, mas era uma flor florida por engano, magoadamente florida por engano. Quando, Luísa, aprendeste tu assim a sorrir? E de onde te veio essa força com que seguravas a chave e que na palma da tua mão esquerda deixava cravadas as unhas? Algures no teu passado está a mágoa que dá força à vontade com que te apegas a todas as tuas coisas. Quem és tu, Luísa?

Amanhã, quando for deitar o lixo no contentor, tenho a certeza de que vou encontrar ainda esse teu sorriso a rasgar o alcatrão negro da rua.

terça-feira, novembro 28, 2006

Uma observação sagaz

"Quando tinha a tua idade, almoçava em cinco minutos e trabalhava 24 horas" (de taxista para taxista).

No comments.

segunda-feira, novembro 27, 2006

"De carinho em carinho vai crescendo o menino"

"De carinho em carinho vai crescendo o menino" é uma das frases que aparece nas tampas dos iogurtes da Danone. Em que é que os senhores da Danone estariam a pensar? Serei apenas eu a fazer a leiturazinha maliciosa?

sexta-feira, novembro 24, 2006

A revolta dos mortos


São várias as personalidades da nossa praça que se revoltaram contra a TLEBS. Algumas redigem manifestos. Podem encontrar um deles em http://fgc.math.ist.utl.pt/tlebs.jpg. É sobre este que gostava de colocar algumas perguntas, realçando desde já um aspecto positivo (ainda que seja o único): finalmente, os senhores professores universitários olharam sem desdém para o ensino não universitário (apenas assim entendo que não sintam vergonha de aparecerem em pé de igualdade com duas professoras do Ensino Secundário).

Quem são estas pessoas e qual a relação que têm com a área em que a alteração promovida pela TLEBS teve efeito?
Quatro são professores catedráticos e um é professor associado. Destes, quatro são de literatura e não de linguística... Em primeiro lugar, algum deles, por uma vez que seja, deu aulas a alunos do ensino não universitário? Conhecem a realidade destes alunos? Sabem como é que se testam estes conteúdos? Alguma vez pensaram na sua importância? Em segundo lugar, a área de especialização de três não é a literatura? Em terceiro lugar, não gosto - mas aqui o problema é talvez apenas meu - de pessoas que se auto-intitulam "decanos". Dois - Graça Moura e Saramago - são escritores. Recuso-me a comentar. Restam duas professoras do Ensino Secundário que me lembram as reuniões contra o regime descritas no Angústia para o Jantar, em que "ficava bem" ter um pedreiro ou um operário reais à mesa... Ora façamos as contas: de nove abaixo-assinados, apenas sete são professores; dos sete que sobram, quatro são professores universitários de literatura e um de linguística; restam duas professoras do Ensino Secundário. Onde estão os representantes do 1º CEB, do 2º CEB e do 3º CEB (que são os níveis de ensino em que as alterações mais se fizeram sentir)?

Quais são as "consequências negativas que advirão da colocação em funcionamento" da TLEBS?
É que a TLEBS já faz parte dos programas do Ensino Secundário desde o ano lectivo de 2003/2004 e portanto as "consequências negativas" já se deveriam ter feito sentir. Além da manifesta falta de vontade de alguns professores, não há consequências negativas. Se estes senhores andassem a dar aulas nestes níveis de ensino ouviriam os alunos dizer coisas como "isto [TLEBS] é mais lógico do que antigamente" ou "isto [TLEBS] é mais fácil", ao mesmo tempo que ouviriam os colegas mais velhos dizerem "era o que faltava, andar a estudar outra vez..." (porque é este o verdadeiro problema e não outro...). As professoras do Ensino Secundário não sabiam disto?

Os abaixo-assinados sabem que, na faculdade, os futuros professores de Língua Portuguesa trabalham com esta terminologia linguística?

É porque um determinante se passou a chamar quantificador que a TLEBS é um atentado contra a "preservação da Língua como património comunicacional e estético de índole pragmática e criativa"?
Continuarmos a classificar a conjugação de determinados verbos como sendo perifrástica é a única maneira de Graça Moura e Saramago preservarem a nossa língua como património estético?

"Sem discussão pública alargada"?
Então onde é que estes senhores andavam quando os programas do Ensino Secundário, com a TLEBS, estiveram em consulta pública no site do Ministério da Educação, pelo menos um ano antes de serem homologados? Onde é que estavam as senhoras professoras do Ensino Secundário quando foram enviadas para as escolas as primeiras brochuras do projecto FALAR com a nova terminologia? Na altura, essas brochuras foram religiosamente ignoradas e a discussão dos programas, como é evidente, religiosissimamente ignorada pelos catedráticos.

"Terminologia incorrecta"?
A frase "Gosto de ti" é uma das frases, certamente, mais frequente em português. Poderão os senhores abaixo-assinados fazer a respectiva análise sintáctica à luz da antiga terminologia? A TLEBS não é perfeita, nem podia ser dada a sua dimensão, mas resolve problemas que a outra criava.

Quais são as "gravíssimas consequências para o país"?
Vamos perder a nossa identidade? Vamos perder os nosso intelectuais porque a nossa língua deixa de ser estética? Portugal sofrerá alguma imprevista catástrofe por causa da TLEBS?

É o Portugal que temos, não contribuímos, criticamos...

Quando é que mandam os vivos?

terça-feira, novembro 21, 2006

Uma aula de Matemática

Desde o início da operação levada a cabo pelos EUA para depor o regime de Saddam Hussein, já morreram no Iraque 2863 soldados. Mesmo atendendo ao facto de se tratar de um cenário de guerra, terem morrido 2863 soldados desde Março de 2004 é um facto que preocupa qualquer dirigente político (incluindo - pasmem-se - o próprio Bush). Em média, morrem por mês no Iraque, um país em que diariamente os soldados americanos são os alvos predilectos de ataques suicidas, 86 pessoas. Em Portugal, um país pacato, muito diferente - dizemos nós - do Iraque, já morreram 708 pessoas desde o início do ano nas estradas portuguesas, o que dá uma triste média de 67 pessoas por mês, apenas menos 19 do que no Iraque (isto porque ainda não chegou o Natal...). Em 2005, perderam a vida nas estradas nacionais 955 pessoas, o que dá a deprimente média de 79 pessoas por mês; se atendermos ao facto de, nesse mesmo ano, 3246 pessoas terem ficado gravemente feridas na sequência de acidentes (entre estas encontramos pessoas que ficaram autênticos vegetais, outras "apenas" estropiadas...), é legítimo concluir que, neste momento, um iraquiano tem mais "esperança de vida" do que um português.


Onde é que está a verdadeira guerra, onde é?

segunda-feira, novembro 13, 2006

Manifesto pró-perfeição

Dizem:
- Somos perfeitos, somos correctos, somos fiés seguidores da ordem e da boa educação. Somos bulldozers, rebarbadoras, na defesa da pureza da alma humana. Línguas conspurcadas as que ousam ler/ dizer vómito, sangue, pénis. Corrupção da imberbe juventude, esses que deixam ter voz autores que ousam negar, que ousam pedir a Deus que os façam sempre "poetas obscuros".


Ora... fossem à merda e de lá sairiam mais limpos!, digo EU!

terça-feira, novembro 07, 2006

TLEBS ou um post sobre os botas-de-elástico

Já há muito que andava para escrever um texto sobre a TLEBS ([Nova] Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), mas sempre achei que ia ficar longo, chato, técnico e maçudo, e para textos qualificáveis com estes adjectivos (excepto o "técnico") já bastam as baboseiras dos botas-de-elástico. Os botas-de-elástico criaram uma enorme gaveta de onde saem coisas horríveis como a TLEBS, o novo programa do Ensino Secundário, a Ministra da Educação e as suas reformas, etc., etc. Para eles, é tudo a mesma coisa, porque no tempo deles, há 20 ou 30 anos atrás, "é que era": reduções de horários, anos zero, práticas lectivas irresponsáveis, ensino de uma gramática cheia de aspectos inexplicáveis e muitas outras coisas boas. Dizem estes senhores professores, indignadíssimos, que os grandes escritores não tiveram aulas de gramática e que, por essa razão, não precisaram de saber o que é, por exemplo, um nome não contável. Correcção humilde: não é que eles não precisassem de saber, eles não precisaram foi de ser ensinados, pois que outra explicação (que não a da evidência desse conhecimento) se poderá encontrar para o uso estilístico que muitos fazem dos nomes não contáveis no plural? Dizem estes professores que não é a ler textos informativos que se aprende a escrever (o modelo, dizem, está na literatura) e que portanto devia voltar-se ao programa antigo, predominantemente dominado por conteúdos literários. Eu pergunto: saber ler Poesia Trovadoresca, Camões, Gil Vicente ou até mesmo Fernando Pessoa significa necessariamente que se saiba ler e compreender o regulamento do Big Brother? E refiro o Big Brother propositadamente, porque eu posso considerar este programa perfeitamente inútil (porque é, na minha opinião), mas não posso esquecer de que ele faz parte da nossa sociedade e de que há pessoas que querem perceber esse regulamento e ainda, e talvez sobretudo, de que é obrigação da escola preparar as pessoas para a leitura correcta também desse tipo de textos. Mas Gil Vicente devia fazer parte dos programas, claro que devia, mas não apenas Gil Vicente ou não apenas literatura.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Umbiguismos

Há piores que nós.

À minha incapacidade de viver cismei de génio, à minha coberdia cobri-a de lhe chamar requinte. Pus-me a mim, Deus dourado com ouro falso, num altar de papelão pintado para parecer mármore.

Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.

Bernardo Soares

Pois, pois, blá, blá.
Raios partam a mania de proclamarem tudo antes de nós.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Um post eventualmente polémico sobre determinado universo feminino

Vão ao supermercado à noite, antes de fechar, de preferência à terça-feira, que é quando têm menos gente. Levam uma lista de compras minuciosamente elaborada durante a semana. Não se distanciam um milímetro dela: nada desejam para além do necessário, e tudo o que está na lista é rigorosamente necessário. Vivem sozinhas há anos, são solteiras ou tiveram um grande desgosto amoroso no passado. Desabituaram-se do contacto com as pessoas e da partilha a que ele necessariamente obriga e por isso fingem não ouvir a sugestão (frequentemente sábia) de quem trabalha no talho ou na peixaria. Se por acaso alguém lhes dirige a palavra respondem secamente, de modo a rematar uma conversa que não chegou a nascer. Mantêm firmes os lábios finos enquanto escolhem as duas maçãs, as bananas e os sete iogurtes. São mulheres secas, uma espécie estranha. Têm um olhar duro, severo sobre o mundo. Existem porque ainda não morreram. Simplesmente por isso, embora nunca tenham desejado a morte. Aliás, sentem-se muito bem como estão, embora não tenham uma honesta vontade de viver. Raramente riem e têm sempre razão. Não gostam de crianças e manifestam claramente o seu desagrado quando ouvem os seus gritos e amuos. São geralmente sindicalizadas, mas nunca foram a nenhuma manifestação. Vestem-se bem, penteiam-se melhor. Não há um único vinco na roupa que vestem nem a roupa se apresenta gasta. Ao chegarem a casa, arrumam meticulosamente as compras na despensa. Amaldiçoam a empregada por ter deixado um pano fora da gaveta e porque a mesa da sala tinha uma perna fora do tapete. Mantêm os lábios firmemente fechados. Não ouvem música, mas vêem o telejornal. Por mera rotina ligam para a mãe, para essa mesma mãe que muitas vezes lhes estragou os namoros. É a única coisa que ainda é capaz de lhes trazer uma lágrima aos olhos, essa raiva surda pela mãe. Têm bons empregos, mas nunca são convidadas para os jantares de Natal com os colegas sobretudo porque elas próprias manifestaram essa vontade. Mantêm os lábios sempre firmes, como se estivessem à beira das lágrimas que nunca derramam. Vivem num mundo silencioso em que o uso das palavras é comedido: apenas o necessário. Sentam-se direitas nas cadeiras e desconfiam sempre da afabilidade masculina. Não toleram atrasos nem qualquer coisa fora de horas. Os gestos são também eles secos, inexpressivos. A harmonia do mundo delas reside na sobriedade e no rigor. Ao lerem este texto, mantêm os lábios firmemente cerrados. Nada disto é importante, nada mesmo...

segunda-feira, outubro 23, 2006

Os árbitros e os adeptos: dois (três?) tipos

Os árbitros encontram invariavelmente uma de duas situações quando arbitram os jogos de futebol: ou se considera que favoreceram a equipa visitante, e então ouvem uma suave contestação dos adeptos da equipa de fora que não chega a incomodá-los verdadeiramente, ou se considera que favoreceram os da casa, e então ouvem umas muito incómodas monumentais assobiadelas. Este fim-de-semana, pude ver que, além destes dois tipos, há o Carlos Xistra, que consegue ser assobiado pelos adeptos da casa enquanto mostra cartões vermelhos aos jogadores da equipa visitante. No comments.

quarta-feira, outubro 18, 2006

O silêncio incómodo

Às vezes chego a pensar que deturpo tudo e que tenho uma visão biliar da realidade. Hoje, não. Não, mil vezes não, porque não posso aceitar que o silêncio incomode as pessoas e as pessoas se vejam na OBRIGAÇÃO de falar. Estes foram os primeiros diálogos que tiveram comigo hoje.


- Ó Pedro, estás despenteado (hi hi hi).
- ...
- Despenteado e com essa barba por fazer nem pareces quem és (hi hi hi).
- Pois, deixarei de ter esse problema quando for careca. Até lá, vou andar assim.
- Sim, isso é verdade [disse isto enquanto passava a mão pela sua ampla calva].
--------------------------------------------

- Ó Pedro, isto está é para os professores, a fazerem as greves...
- ...
- Se tivessem de trabalhar como nós...
- ...
- Andam de barriga cheia, por isso é que fazem isto. E quem paga isto tudo são os nossos impostos. Se eu fosse ministro, punha tudo na rua. Tudo. Essa malandragem.
- ...
- Os alunos a quererem ter aulas e eles nesta pouca-vergonha.
- Pois, isto no tempo do Salazar é que era, não era?
-----------------------------------------------------

- Ó Pedro, então ontem o Benfica, hã? Aquilo é que foi. Uma vergonha. Quer dizer, é o Benfica, o maior clube nacional (eh eh eh). Hoje há-de haver aí uns trombudos, que nem falam. Eu gosto é de os ver assim.
- ...


E se se fossem F**** todos? O silêncio não incomoda ninguém. Só incomoda os palermas que já não aguentam viver com eles próprios e que por isso são incapazes de suportar o estarem com eles mesmos. Mas que culpa é que eu tenho? F***-se!
Pronto, já tive o meu momento catártico.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Mudar de casa - capítulo II

Moviflor vs. IKEA

Os móveis da IKEA são resistentes. Os da Moviflor nem depois de completamente montados. Durante a montagem, a madeira da Moviflor esboroa-se toda. A da IKEA mantém-se sólida. Os sacos de ferragens, parafusos e afins dos móveis da IKEA trazem sempre o número certo de material (em dois casos, traziam a mais). Os da Moviflor trazem material em número insuficiente (curiosamente, usei o que sobrou da IKEA). Devido ao modo como apresentam as instruções, os móveis da Moviflor demoram o dobro do tempo a montar. Finalmente, na IKEA não estão sistematicamente a dizer que o "produto está esgotado temporariamente". Dúvidas?

terça-feira, outubro 10, 2006

Mudar de casa - capítulo I

Quando a casa não tem ainda gás, montar um esquentador é tarefa fácil. É necessário um tubo para o gás com duas anilhas, e dois tubos para a água (um para a água quente outro para a água fria) com as respectivas anilhas. Há, no entanto, uma imensidão de pequenas coisas que podem correr mal e que, se podem correr mal, ordinariamente correm mal... Aconteceu-me a mim e, depois de ter resolvido vários pequenos problemas que surgiram com a montagem, desisti de montar o esquentador e chamei um "técnico". Tive de lhe pagar 60€ para este me explicar que eu simplesmente estava a colocar pouco isolante (uma fita plástica branca extremamente maleável) no tubo da água fria. 60€...

segunda-feira, outubro 09, 2006

Autocarro

"- Não tenho tempo para ser infeliz. Não tenho tempo."
Sento-me no autocarro e elas sacodem o cabelo, abrem as malas e espalham as bijuterias artesanais da moda. Fazem furor as da novela florida. Quando passam, à saída (ou entrada) do metro, pelas vendedoras que apregoam as suas (menos artesanais) bijuterias, olham de soslaio, com focinho de ranço. Falam alto, são muito amigas e falam alto. No Natal discutem as "barbies" e a colecção de acessórios oferecidos às suas progenituras. (E ainda o outro dizia ter sido como ervas...) Assopro porque me esqueci de sentar mais atrás. Se tivesse, como o Álvaro, uma cadeira, ainda ouvia os cacarejos da capoeira. Como não tenho, aninho-me, fecho os olhos e, com algum esforço, misturo as galinhagens com ideias avulsas que me surgem na cabeça. Acordo por vezes a martelar com a cabeça no vidro.

Para se ser infeliz é preciso tempo.

segunda-feira, setembro 25, 2006

Uma observação sobre o (des)emprego

Elas pintam-se, usam decotes e sorriem. Elas beijam sempre o patrão, quase o abraçam e perguntam sempre se dormiu bem. Elas usam perfume. Elas usam muito perfume quando têm reuniões com o patrão. Elas convidam o patrão para o casamento. Eles engravidam as mulheres e o efeito é o mesmo.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Uma adenda

Este post está incompleto. Falta dizer que um dos senhores comia de boca aberta, falava com comida na boca, cuspia as espinhas do peixe para o prato com uma precisão milimétrica (enfim, a prática dos anos...), palitava os dentes de boca aberta, fazia, com uma perícia exemplar, deslizar o palito na boca e, esgotado o palito, palitava os dentes com as unhas. Não imaginam como me dói dizer que este senhor é presidente de uma instituição tão nobre...

quarta-feira, setembro 13, 2006

Ausência

Quando era pequeno e me acontecia cair-me um dente, passava os dias seguintes a passar insistentemente a língua pelo buraco que de repente surgia na minha boca. Era um gesto quase doentio e que chegava a provocar uma dor intensa, a qual, curiosamente, me parecia envolver-me ainda mais na obsessão de sentir a ausência do dente. A força que imprimia era tamanha que chegava a sangrar. Esta dor é a melhor metáfora que conheço do saudosismo tipicamente português, de que me considero, necessariamente, herdeiro. É a ausência de alguém que nos faz falta, que faz parte de nós e de quem em parte dependemos que provoca esse mesmo sentimento obsessivo a que chamamos saudade. A saudade mais não é do que esse eterno retorno ao lugar da ausência.

Hoje acordei assim. Sem um dente.

sexta-feira, agosto 25, 2006

!

"Vieira vai ser constituído arguido no caso Mantorras", 24 Horas dixit.

"Não há qualquer indicação de que Luís Filipe Vieira esteja para ser interrogado no âmbito deste processo [Mantorras], muito menos que seja constituído arguido", Polícia Judiciária dixit.

"A transferência de Mantorras do Alverca para o Benfica foi completamente transparente", L. F. Vieira dixit.


"...notícia que reafirmamos e que muito estranharemos se acabar por não se concretizar" [sobre a notícia inicial], Pedro Tadeu (director do 24 Horas) dixit.



Gosto de posts que se escrevem a eles próprios.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Por que razão é Paris a cidade mais romântica?

Bastaram-me dois dias de chuva em Paris para descobrir por que razão é esta a cidade mais romântica do mundo. Se no final do segundo dia de chuva intensa, depois de teres passado quase 2 horas para entrar no Castelo de Versalhes (na rua, ao vento, ao frio...), de o teres visitado literalmente enlatado em algumas salas com 500 chineses (ou japoneses, não os distingo), de teres caminhado quilómetros pelos seus jardins, nem sempre com chuva, mas sempre com muito frio, a tua namorada (ou quem quer que vá contigo) aceitar com um sorriso comer um gelado nos Campos Elísios depois de jantar, ainda que completamente encharcada, e se, depois de comer o gelado, ainda que atendida por uma portuguesa que não usava desodorizante, ela disser que gostou do dia, é porque a tua namorada gosta muito de ti. Mas se ainda tiveres dúvidas, experimenta no dia seguinte esperar quase 3 horas para chegar ao topo da Torre Eiffel, ao lado de um grupo de jovens judeus que vão escrevendo nos pilares da Torre, com canivetes de bolso, os respectivos nomes e outras frases ininteligíveis. Ou então, podes sempre decidir descer os Campos Elísios em direcção ao Louvre debaixo de chuva, para poderes pagar a entrada no museu com uma nota húmida. Se, depois de tudo isto, voltares para Portugal acompanhado, é porque a tua namorada gosta MESMO de ti. E aí está a razão por que Paris é uma cidade romântica.

p.s. - no final recebi uma medalhinha protectora milagreira e o tempo ficou melhor: se tiverem uma e se não precisarem de umas férias românticas, não a deixem em casa.

terça-feira, agosto 22, 2006

O lixo das minhas vizinhas ou o terrorismo urbano da terceira idade

As minhas vizinhas não usam o caixote do lixo do prédio. "Nunca", garantiram-me. Razão: "é que... olhe, se nós usarmos o caixote do lixo e o pusermos lá fora, os vizinhos dos outros prédios da praceta vêm pôr o lixo no nosso caixote, e depois quem tem de o lavar somos nós!". De facto, é desagradável. Apercebi-me de que elas não o usavam porque ontem a vizinha do 1º esquerdo avisou-me de que, dado que usei o caixote do lixo (tinha lá deixado um saco - pela primeira vez - na sexta-feira), devia ser eu a pô-lo lá fora. Sim, tinha razão. Como eu costumo levar o meu saco do lixo no carro até ao caixote do lixo que está junto dos ecopontos, perguntei à minha vizinha como é que ela e as restantes senhoras faziam para deitar fora o lixo. Resposta: "esperamos pela noite, e, antes da uma da manhã, que é quando vem o camião do lixo, deitamos os nossos sacos nos caixotes do lixo dos prédios vizinhos". Chama-se a isto "terrorismo urbano da terceira idade". Ontem à noite, quando cheguei a casa, o caixote do lixo tinha não só o meu saco como também outros três sacos do lixo, que não eram evidentemente das minhas vizinhas porque elas não o usam "nunca", nem dos vizinhos dos outros prédios porque o caixote ainda estava dentro do meu prédio. Terrorismo urbano puro conjugado com as regras da boa vizinhança lisboeta. Pus o caixote lá fora, como me competia, e hoje de manhã pu-lo dentro, como me competia. Só espero que, quando estiver a ver o Benfica logo à noite, a vizinha do 1º esquerdo não me venha dizer que tenho de lavar o caixote do prédio. Se o fizer, perceberá que eu também consigo ser filhinho da puta.

quarta-feira, agosto 09, 2006


Vou voltar a Paris amanhã. Há uns meses atrás, a mera possibilidade desta viagem era... uma absoluta impossibilidade. Hoje quase me parece que nunca quis outra coisa na vida. Desta vez, tenho todas as condições para perceber a razão por que é chamada a "cidade mais romântica" do mundo. Ainda não estou lá, mas já começo a perceber...

Boas férias!

segunda-feira, agosto 07, 2006

Lisboa em Agosto

Levanto-me vinte minutos mais tarde do que durante o resto do ano, mas chego ao emprego antes da hora.

Pelo caminho, encontro uma família de emigrantes franceses com uma imensidão de galhardetes e autocolantes de Portugal a enfeitar o carro. Vieram a Lisboa visitar os primos que já mal conhecem, e entregar os presentes, duas caixas de chocolates compradas em Espanha e já derretidas pelo calor da viagem, uns ténis que já não servem aos filhos dos primos, uma t-shirt para o primo com uma fotografia de um encontro de emigrantes estampada e um perfume que a prima nunca usará. Os primos de Lisboa não têm nada para dar, porque a vida está difícil e "aqui não é como lá". Têm pouco em comum, mas vão acabar o dia deitados ao sol na Costa da Caparica, com uma geleira com o arroz de frango e com os pastéis de bacalhau. À noite, chocolates, t-shirt, ténis e perfume estarão já no lixo.

Vou tomar o pequeno-almoço à única pastelaria aberta num raio de 500 metros.
À entrada, os ciganos apregoam para o vazio do passeio o último grito das camisas Tommy Hilfiger. Quando me vêem, pegam-me no braço e quase me fazem acreditar que ao virar da esquina me cairá um bloco de betão em cima se não comprar uma camisa que me fará parecer um rei. Os filhos gritam e rebolam pelo chão, um deles acerta com a barriga em cima de um excremento do cão do Silva do 3º esquerdo, que não apanhou o cocó do Boby "porque sabe como é, à noite não se vê nada...". Não compro nada e, se escrevo este post, é porque o bloco de betão não acertou em mim.

Vou tomar café a uma tasca cuja clientela - eu incluído - é um diversificado leque de exemplares da "fauna maravilhosa do fundo do mar da vida". Em cima do balcão, três ovos cozidos. "Ó chefe, vai um ovinho? Estes não têm gripe". Recuso, educadamente, e peço um café. "Ó amigo, vai ter de esperar, que isto às vezes é tal a afronta que nem dá para coçar a micose". O que é que se diz nestas alturas?

Vou olhando para o telemóvel, na esperança de que alguém me devolva a realidade.

Quando é que chegam os vivos?

sexta-feira, agosto 04, 2006

Conversa de casa de banho ou a lucidez dos putos

Numa casa de banho de um centro comercial:
Pai - Só isso? Então tu fizeste-me andar um quarto de hora para só fazeres esse chichi?
Filho - Ó pai, é o que tenho...
Pai - Um quarto de hora para isso?
Filho - Não tenho mais...
Pai - Estávamos tão bem lá e viemos para aqui por causa de ti... e tu fazes só isso?
Filho - Não tenho mais vontade, pai.
Pai - Se soubesse, não tínhamos vindo!
Filho - Olha, p'ra próxima faço nos calções!

quarta-feira, agosto 02, 2006

Strings - we are all connected


Strings é sobretudo a história da viagem que Hal Tara empreende para vingar a morte do rei, seu pai, assassinado pelo líder do povo rival. O que Hal Tara não sabe é que - e por isso a viagem é para ele um engano - o pai se suicidou para lhe deixar o trono, e que a história do assassinato foi engendrada pelo seu tio. A viagem, no entanto, é uma viagem necessária, pois é toda ela um longo ritual iniciático para o protagonista, que inclui evidentemente, à boa maneira da tradição dos contos populares, a descoberta do próprio amor. E a força do amor é talvez o maior ensinamento que Hal Tara colhe da sua iniciação, ao descobrir que com o verdadeiro amor é capaz de se superar a si próprio fazendo coisas que à partida não seriam possíveis para uma marioneta (para uma marioneta porque o filme não é sobre humanos).

O momento em que Hal Tara descobre o amor (e também este amor pode ser lido na sequência de uma certa tradição literária - Romeu e Julieta, Tristão e Isolda -, dada a sua aparente impossibilidade) é amplamente explorado pelo argumento, pois algumas das ideias principais do filme são-nos apresentadas nesse momento, nomeadamente a ideia de que as marionetas estão todas ligadas porque terminam onde as outras começam.

A leitura do filme como uma metáfora da vida humana é mais ou menos inevitável, e, visto desse modo, haveria muito a dizer sobre os fios que nos ligam à vida, sobre o amor, sobre o facto de estarmos todos ligados...

terça-feira, julho 25, 2006

Post atrasado

Paul Gorka, I Love Meat


Sexta-feira à noite, num mercado de carne da Margem Sul... Há peças para todos(?) os gostos - alcatra, perna, cachaço, acém - de vaca e de porco (perdoem-me a mistura os puristas do talho). Não querendo ferir a susceptibilidade feminina, também há carne de porca, claro! Chega o/a cliente, tira a senha (sim, porque no mercado há sempre fila) e escolhe (tarefa difícil perante a oferta abundante).

Seria caso, eventualmente, para reflectir sobre as consequências nefastas do desequilíbrio entre procura e oferta na economia.
Agora não.

Quer o/a cliente saber se a carne é tenra, que isso de roer sola de sapato…
“– Ó senhor, veja lá se me dá tenra!”
Ainda assim, correm(os) o risco de uma intoxicação alimentar. Eu, tal é o enjoo, saio de lá e não me apetece comer nada!

A propósito… sempre me fez confusão a forma como os homens escolhem, no supermercado, as sapateiras, comprimindo e apalpando-lhes o “miolo”. Mas isso já era Peixaria e sexta-feira à noite o que importa é a carne.

Diminuição da superfície de contacto com a realidade

Hoje de madrugada, num hospital de Lisboa, disseram-me (disse-me) com um abraço que confundo muitas vezes a realidade com o sonho. Agora que penso na hora onírica que ali passei, sim, acho que têm (tem) razão. Lobo Antunes escreveu um dia que para casos como o meu o diagnóstico de um psiquiatra seria "diminuição da superfície de contacto com a realidade". Apenas. Talvez seja isso, talvez. Mas fico descansado ao ler a correcção que Lobo Antunes faz desse diagnóstico: "«Diminuição da superfície de contacto com a realidade?» Não: a realidade mesma. A única que, com um pouco de sorte, poderemos habitar". E às vezes, de facto, as fronteiras são tão ténues...

segunda-feira, julho 24, 2006

Um bom empregado de café...


... NUNCA pergunta se queremos copo para beber o Capri-Sonne.

quarta-feira, julho 19, 2006

As merdas que um gajo tem de ouvir de manhã no emprego

"Óculos com óculos é o que dá".
"Há muito tempo que não te vejo sorrir". [De homem para homem...]
"É melhor imaginar do que ver". [De velho babado para mulher...]
"Faltei... faltei...".
"Faltei, não faltei?"
"Explique-me qual foi o critério... Não, explique-me qual foi o critério".
"O que é que isto te lembra?"
"É só para dizer que, se vier aí alguém a dizer que eu o mandei à merda, não anda muito longe da verdade".
"Pareces o Tarzan".
"Mas o gajo tem uma camisa que dá para duas estações. Não é para qualquer gajo".

terça-feira, julho 18, 2006

Entre dentes...

«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar.Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará.»

José Luís Peixoto

... enganei-me eu. Hoje foi ontem.

quarta-feira, julho 12, 2006

Fateless: you can close your eyes, you can turn away, but you will never forget.


O filme é basicamente (mais) um relato de um sobrevivente e acrescenta pouco ao que já sabemos sobre o drama dos judeus durante a II Guerra Mundial. A história não é propriamente um primor, mas a perspectiva adoptada torna-a bastante interessante, sobretudo quando o realizador deixa ouvir o protagonista pensar, porque não é mais um filme quase totalmente comprometido com uma determinada visão do Holocausto . A fotografia (e as alterações da fotografia) e os planos que se aproveitam do jogo de sombras tornam Sem Destino num filme muito rico do ponto de vista estético, o que me parece ser um dos seus pontos fortes. Guardo para o final duas pérolas: a ambígua e insistente interrogação sobre a existência de câmaras de gás na Polónia que é feita por uma personagem anónima quando o protagonista regressa à Hungria, e a reflexão final do protagonista, que conseguiu ver entre as chaminés dos crematórios assomos de felicidade (sobre a qual ninguém lhe pedia para falar).

terça-feira, julho 11, 2006