terça-feira, julho 25, 2006

Post atrasado

Paul Gorka, I Love Meat


Sexta-feira à noite, num mercado de carne da Margem Sul... Há peças para todos(?) os gostos - alcatra, perna, cachaço, acém - de vaca e de porco (perdoem-me a mistura os puristas do talho). Não querendo ferir a susceptibilidade feminina, também há carne de porca, claro! Chega o/a cliente, tira a senha (sim, porque no mercado há sempre fila) e escolhe (tarefa difícil perante a oferta abundante).

Seria caso, eventualmente, para reflectir sobre as consequências nefastas do desequilíbrio entre procura e oferta na economia.
Agora não.

Quer o/a cliente saber se a carne é tenra, que isso de roer sola de sapato…
“– Ó senhor, veja lá se me dá tenra!”
Ainda assim, correm(os) o risco de uma intoxicação alimentar. Eu, tal é o enjoo, saio de lá e não me apetece comer nada!

A propósito… sempre me fez confusão a forma como os homens escolhem, no supermercado, as sapateiras, comprimindo e apalpando-lhes o “miolo”. Mas isso já era Peixaria e sexta-feira à noite o que importa é a carne.

Diminuição da superfície de contacto com a realidade

Hoje de madrugada, num hospital de Lisboa, disseram-me (disse-me) com um abraço que confundo muitas vezes a realidade com o sonho. Agora que penso na hora onírica que ali passei, sim, acho que têm (tem) razão. Lobo Antunes escreveu um dia que para casos como o meu o diagnóstico de um psiquiatra seria "diminuição da superfície de contacto com a realidade". Apenas. Talvez seja isso, talvez. Mas fico descansado ao ler a correcção que Lobo Antunes faz desse diagnóstico: "«Diminuição da superfície de contacto com a realidade?» Não: a realidade mesma. A única que, com um pouco de sorte, poderemos habitar". E às vezes, de facto, as fronteiras são tão ténues...

segunda-feira, julho 24, 2006

Um bom empregado de café...


... NUNCA pergunta se queremos copo para beber o Capri-Sonne.

quarta-feira, julho 19, 2006

As merdas que um gajo tem de ouvir de manhã no emprego

"Óculos com óculos é o que dá".
"Há muito tempo que não te vejo sorrir". [De homem para homem...]
"É melhor imaginar do que ver". [De velho babado para mulher...]
"Faltei... faltei...".
"Faltei, não faltei?"
"Explique-me qual foi o critério... Não, explique-me qual foi o critério".
"O que é que isto te lembra?"
"É só para dizer que, se vier aí alguém a dizer que eu o mandei à merda, não anda muito longe da verdade".
"Pareces o Tarzan".
"Mas o gajo tem uma camisa que dá para duas estações. Não é para qualquer gajo".

terça-feira, julho 18, 2006

Entre dentes...

«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos, muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece água limpa de um açude. Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu. Um açude sem peixes, sem fundo, este céu. Nuvens, veios ténues. E o ar a arder por dentro, chamas quentes e abafadas na pele, invisíveis. Suspenso, como um homem cansado, ar.Há-de ser um instante em que não se veja um pardal, em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos. Chegará.»

José Luís Peixoto

... enganei-me eu. Hoje foi ontem.

quarta-feira, julho 12, 2006

Fateless: you can close your eyes, you can turn away, but you will never forget.


O filme é basicamente (mais) um relato de um sobrevivente e acrescenta pouco ao que já sabemos sobre o drama dos judeus durante a II Guerra Mundial. A história não é propriamente um primor, mas a perspectiva adoptada torna-a bastante interessante, sobretudo quando o realizador deixa ouvir o protagonista pensar, porque não é mais um filme quase totalmente comprometido com uma determinada visão do Holocausto . A fotografia (e as alterações da fotografia) e os planos que se aproveitam do jogo de sombras tornam Sem Destino num filme muito rico do ponto de vista estético, o que me parece ser um dos seus pontos fortes. Guardo para o final duas pérolas: a ambígua e insistente interrogação sobre a existência de câmaras de gás na Polónia que é feita por uma personagem anónima quando o protagonista regressa à Hungria, e a reflexão final do protagonista, que conseguiu ver entre as chaminés dos crematórios assomos de felicidade (sobre a qual ninguém lhe pedia para falar).

terça-feira, julho 11, 2006