segunda-feira, agosto 07, 2006

Lisboa em Agosto

Levanto-me vinte minutos mais tarde do que durante o resto do ano, mas chego ao emprego antes da hora.

Pelo caminho, encontro uma família de emigrantes franceses com uma imensidão de galhardetes e autocolantes de Portugal a enfeitar o carro. Vieram a Lisboa visitar os primos que já mal conhecem, e entregar os presentes, duas caixas de chocolates compradas em Espanha e já derretidas pelo calor da viagem, uns ténis que já não servem aos filhos dos primos, uma t-shirt para o primo com uma fotografia de um encontro de emigrantes estampada e um perfume que a prima nunca usará. Os primos de Lisboa não têm nada para dar, porque a vida está difícil e "aqui não é como lá". Têm pouco em comum, mas vão acabar o dia deitados ao sol na Costa da Caparica, com uma geleira com o arroz de frango e com os pastéis de bacalhau. À noite, chocolates, t-shirt, ténis e perfume estarão já no lixo.

Vou tomar o pequeno-almoço à única pastelaria aberta num raio de 500 metros.
À entrada, os ciganos apregoam para o vazio do passeio o último grito das camisas Tommy Hilfiger. Quando me vêem, pegam-me no braço e quase me fazem acreditar que ao virar da esquina me cairá um bloco de betão em cima se não comprar uma camisa que me fará parecer um rei. Os filhos gritam e rebolam pelo chão, um deles acerta com a barriga em cima de um excremento do cão do Silva do 3º esquerdo, que não apanhou o cocó do Boby "porque sabe como é, à noite não se vê nada...". Não compro nada e, se escrevo este post, é porque o bloco de betão não acertou em mim.

Vou tomar café a uma tasca cuja clientela - eu incluído - é um diversificado leque de exemplares da "fauna maravilhosa do fundo do mar da vida". Em cima do balcão, três ovos cozidos. "Ó chefe, vai um ovinho? Estes não têm gripe". Recuso, educadamente, e peço um café. "Ó amigo, vai ter de esperar, que isto às vezes é tal a afronta que nem dá para coçar a micose". O que é que se diz nestas alturas?

Vou olhando para o telemóvel, na esperança de que alguém me devolva a realidade.

Quando é que chegam os vivos?

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