segunda-feira, setembro 25, 2006

Uma observação sobre o (des)emprego

Elas pintam-se, usam decotes e sorriem. Elas beijam sempre o patrão, quase o abraçam e perguntam sempre se dormiu bem. Elas usam perfume. Elas usam muito perfume quando têm reuniões com o patrão. Elas convidam o patrão para o casamento. Eles engravidam as mulheres e o efeito é o mesmo.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Uma adenda

Este post está incompleto. Falta dizer que um dos senhores comia de boca aberta, falava com comida na boca, cuspia as espinhas do peixe para o prato com uma precisão milimétrica (enfim, a prática dos anos...), palitava os dentes de boca aberta, fazia, com uma perícia exemplar, deslizar o palito na boca e, esgotado o palito, palitava os dentes com as unhas. Não imaginam como me dói dizer que este senhor é presidente de uma instituição tão nobre...

quarta-feira, setembro 13, 2006

Ausência

Quando era pequeno e me acontecia cair-me um dente, passava os dias seguintes a passar insistentemente a língua pelo buraco que de repente surgia na minha boca. Era um gesto quase doentio e que chegava a provocar uma dor intensa, a qual, curiosamente, me parecia envolver-me ainda mais na obsessão de sentir a ausência do dente. A força que imprimia era tamanha que chegava a sangrar. Esta dor é a melhor metáfora que conheço do saudosismo tipicamente português, de que me considero, necessariamente, herdeiro. É a ausência de alguém que nos faz falta, que faz parte de nós e de quem em parte dependemos que provoca esse mesmo sentimento obsessivo a que chamamos saudade. A saudade mais não é do que esse eterno retorno ao lugar da ausência.

Hoje acordei assim. Sem um dente.