quarta-feira, setembro 13, 2006

Ausência

Quando era pequeno e me acontecia cair-me um dente, passava os dias seguintes a passar insistentemente a língua pelo buraco que de repente surgia na minha boca. Era um gesto quase doentio e que chegava a provocar uma dor intensa, a qual, curiosamente, me parecia envolver-me ainda mais na obsessão de sentir a ausência do dente. A força que imprimia era tamanha que chegava a sangrar. Esta dor é a melhor metáfora que conheço do saudosismo tipicamente português, de que me considero, necessariamente, herdeiro. É a ausência de alguém que nos faz falta, que faz parte de nós e de quem em parte dependemos que provoca esse mesmo sentimento obsessivo a que chamamos saudade. A saudade mais não é do que esse eterno retorno ao lugar da ausência.

Hoje acordei assim. Sem um dente.

2 comentários:

Paloma disse...

E agora tens um problema acrescido: o dente já não é de leite. ;-)

Getthis disse...

É a inevitável fatalidade da vida, uns dentes ficam, outros caiem. O ganho está em saber preservar aqueles que ficam, pois aqueles que partem, já o vento os levou ...