segunda-feira, outubro 09, 2006

Autocarro

"- Não tenho tempo para ser infeliz. Não tenho tempo."
Sento-me no autocarro e elas sacodem o cabelo, abrem as malas e espalham as bijuterias artesanais da moda. Fazem furor as da novela florida. Quando passam, à saída (ou entrada) do metro, pelas vendedoras que apregoam as suas (menos artesanais) bijuterias, olham de soslaio, com focinho de ranço. Falam alto, são muito amigas e falam alto. No Natal discutem as "barbies" e a colecção de acessórios oferecidos às suas progenituras. (E ainda o outro dizia ter sido como ervas...) Assopro porque me esqueci de sentar mais atrás. Se tivesse, como o Álvaro, uma cadeira, ainda ouvia os cacarejos da capoeira. Como não tenho, aninho-me, fecho os olhos e, com algum esforço, misturo as galinhagens com ideias avulsas que me surgem na cabeça. Acordo por vezes a martelar com a cabeça no vidro.

Para se ser infeliz é preciso tempo.

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