terça-feira, novembro 28, 2006

Uma observação sagaz

"Quando tinha a tua idade, almoçava em cinco minutos e trabalhava 24 horas" (de taxista para taxista).

No comments.

segunda-feira, novembro 27, 2006

"De carinho em carinho vai crescendo o menino"

"De carinho em carinho vai crescendo o menino" é uma das frases que aparece nas tampas dos iogurtes da Danone. Em que é que os senhores da Danone estariam a pensar? Serei apenas eu a fazer a leiturazinha maliciosa?

sexta-feira, novembro 24, 2006

A revolta dos mortos


São várias as personalidades da nossa praça que se revoltaram contra a TLEBS. Algumas redigem manifestos. Podem encontrar um deles em http://fgc.math.ist.utl.pt/tlebs.jpg. É sobre este que gostava de colocar algumas perguntas, realçando desde já um aspecto positivo (ainda que seja o único): finalmente, os senhores professores universitários olharam sem desdém para o ensino não universitário (apenas assim entendo que não sintam vergonha de aparecerem em pé de igualdade com duas professoras do Ensino Secundário).

Quem são estas pessoas e qual a relação que têm com a área em que a alteração promovida pela TLEBS teve efeito?
Quatro são professores catedráticos e um é professor associado. Destes, quatro são de literatura e não de linguística... Em primeiro lugar, algum deles, por uma vez que seja, deu aulas a alunos do ensino não universitário? Conhecem a realidade destes alunos? Sabem como é que se testam estes conteúdos? Alguma vez pensaram na sua importância? Em segundo lugar, a área de especialização de três não é a literatura? Em terceiro lugar, não gosto - mas aqui o problema é talvez apenas meu - de pessoas que se auto-intitulam "decanos". Dois - Graça Moura e Saramago - são escritores. Recuso-me a comentar. Restam duas professoras do Ensino Secundário que me lembram as reuniões contra o regime descritas no Angústia para o Jantar, em que "ficava bem" ter um pedreiro ou um operário reais à mesa... Ora façamos as contas: de nove abaixo-assinados, apenas sete são professores; dos sete que sobram, quatro são professores universitários de literatura e um de linguística; restam duas professoras do Ensino Secundário. Onde estão os representantes do 1º CEB, do 2º CEB e do 3º CEB (que são os níveis de ensino em que as alterações mais se fizeram sentir)?

Quais são as "consequências negativas que advirão da colocação em funcionamento" da TLEBS?
É que a TLEBS já faz parte dos programas do Ensino Secundário desde o ano lectivo de 2003/2004 e portanto as "consequências negativas" já se deveriam ter feito sentir. Além da manifesta falta de vontade de alguns professores, não há consequências negativas. Se estes senhores andassem a dar aulas nestes níveis de ensino ouviriam os alunos dizer coisas como "isto [TLEBS] é mais lógico do que antigamente" ou "isto [TLEBS] é mais fácil", ao mesmo tempo que ouviriam os colegas mais velhos dizerem "era o que faltava, andar a estudar outra vez..." (porque é este o verdadeiro problema e não outro...). As professoras do Ensino Secundário não sabiam disto?

Os abaixo-assinados sabem que, na faculdade, os futuros professores de Língua Portuguesa trabalham com esta terminologia linguística?

É porque um determinante se passou a chamar quantificador que a TLEBS é um atentado contra a "preservação da Língua como património comunicacional e estético de índole pragmática e criativa"?
Continuarmos a classificar a conjugação de determinados verbos como sendo perifrástica é a única maneira de Graça Moura e Saramago preservarem a nossa língua como património estético?

"Sem discussão pública alargada"?
Então onde é que estes senhores andavam quando os programas do Ensino Secundário, com a TLEBS, estiveram em consulta pública no site do Ministério da Educação, pelo menos um ano antes de serem homologados? Onde é que estavam as senhoras professoras do Ensino Secundário quando foram enviadas para as escolas as primeiras brochuras do projecto FALAR com a nova terminologia? Na altura, essas brochuras foram religiosamente ignoradas e a discussão dos programas, como é evidente, religiosissimamente ignorada pelos catedráticos.

"Terminologia incorrecta"?
A frase "Gosto de ti" é uma das frases, certamente, mais frequente em português. Poderão os senhores abaixo-assinados fazer a respectiva análise sintáctica à luz da antiga terminologia? A TLEBS não é perfeita, nem podia ser dada a sua dimensão, mas resolve problemas que a outra criava.

Quais são as "gravíssimas consequências para o país"?
Vamos perder a nossa identidade? Vamos perder os nosso intelectuais porque a nossa língua deixa de ser estética? Portugal sofrerá alguma imprevista catástrofe por causa da TLEBS?

É o Portugal que temos, não contribuímos, criticamos...

Quando é que mandam os vivos?

terça-feira, novembro 21, 2006

Uma aula de Matemática

Desde o início da operação levada a cabo pelos EUA para depor o regime de Saddam Hussein, já morreram no Iraque 2863 soldados. Mesmo atendendo ao facto de se tratar de um cenário de guerra, terem morrido 2863 soldados desde Março de 2004 é um facto que preocupa qualquer dirigente político (incluindo - pasmem-se - o próprio Bush). Em média, morrem por mês no Iraque, um país em que diariamente os soldados americanos são os alvos predilectos de ataques suicidas, 86 pessoas. Em Portugal, um país pacato, muito diferente - dizemos nós - do Iraque, já morreram 708 pessoas desde o início do ano nas estradas portuguesas, o que dá uma triste média de 67 pessoas por mês, apenas menos 19 do que no Iraque (isto porque ainda não chegou o Natal...). Em 2005, perderam a vida nas estradas nacionais 955 pessoas, o que dá a deprimente média de 79 pessoas por mês; se atendermos ao facto de, nesse mesmo ano, 3246 pessoas terem ficado gravemente feridas na sequência de acidentes (entre estas encontramos pessoas que ficaram autênticos vegetais, outras "apenas" estropiadas...), é legítimo concluir que, neste momento, um iraquiano tem mais "esperança de vida" do que um português.


Onde é que está a verdadeira guerra, onde é?

segunda-feira, novembro 13, 2006

Manifesto pró-perfeição

Dizem:
- Somos perfeitos, somos correctos, somos fiés seguidores da ordem e da boa educação. Somos bulldozers, rebarbadoras, na defesa da pureza da alma humana. Línguas conspurcadas as que ousam ler/ dizer vómito, sangue, pénis. Corrupção da imberbe juventude, esses que deixam ter voz autores que ousam negar, que ousam pedir a Deus que os façam sempre "poetas obscuros".


Ora... fossem à merda e de lá sairiam mais limpos!, digo EU!

terça-feira, novembro 07, 2006

TLEBS ou um post sobre os botas-de-elástico

Já há muito que andava para escrever um texto sobre a TLEBS ([Nova] Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), mas sempre achei que ia ficar longo, chato, técnico e maçudo, e para textos qualificáveis com estes adjectivos (excepto o "técnico") já bastam as baboseiras dos botas-de-elástico. Os botas-de-elástico criaram uma enorme gaveta de onde saem coisas horríveis como a TLEBS, o novo programa do Ensino Secundário, a Ministra da Educação e as suas reformas, etc., etc. Para eles, é tudo a mesma coisa, porque no tempo deles, há 20 ou 30 anos atrás, "é que era": reduções de horários, anos zero, práticas lectivas irresponsáveis, ensino de uma gramática cheia de aspectos inexplicáveis e muitas outras coisas boas. Dizem estes senhores professores, indignadíssimos, que os grandes escritores não tiveram aulas de gramática e que, por essa razão, não precisaram de saber o que é, por exemplo, um nome não contável. Correcção humilde: não é que eles não precisassem de saber, eles não precisaram foi de ser ensinados, pois que outra explicação (que não a da evidência desse conhecimento) se poderá encontrar para o uso estilístico que muitos fazem dos nomes não contáveis no plural? Dizem estes professores que não é a ler textos informativos que se aprende a escrever (o modelo, dizem, está na literatura) e que portanto devia voltar-se ao programa antigo, predominantemente dominado por conteúdos literários. Eu pergunto: saber ler Poesia Trovadoresca, Camões, Gil Vicente ou até mesmo Fernando Pessoa significa necessariamente que se saiba ler e compreender o regulamento do Big Brother? E refiro o Big Brother propositadamente, porque eu posso considerar este programa perfeitamente inútil (porque é, na minha opinião), mas não posso esquecer de que ele faz parte da nossa sociedade e de que há pessoas que querem perceber esse regulamento e ainda, e talvez sobretudo, de que é obrigação da escola preparar as pessoas para a leitura correcta também desse tipo de textos. Mas Gil Vicente devia fazer parte dos programas, claro que devia, mas não apenas Gil Vicente ou não apenas literatura.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Umbiguismos

Há piores que nós.

À minha incapacidade de viver cismei de génio, à minha coberdia cobri-a de lhe chamar requinte. Pus-me a mim, Deus dourado com ouro falso, num altar de papelão pintado para parecer mármore.

Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.

Bernardo Soares

Pois, pois, blá, blá.
Raios partam a mania de proclamarem tudo antes de nós.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Um post eventualmente polémico sobre determinado universo feminino

Vão ao supermercado à noite, antes de fechar, de preferência à terça-feira, que é quando têm menos gente. Levam uma lista de compras minuciosamente elaborada durante a semana. Não se distanciam um milímetro dela: nada desejam para além do necessário, e tudo o que está na lista é rigorosamente necessário. Vivem sozinhas há anos, são solteiras ou tiveram um grande desgosto amoroso no passado. Desabituaram-se do contacto com as pessoas e da partilha a que ele necessariamente obriga e por isso fingem não ouvir a sugestão (frequentemente sábia) de quem trabalha no talho ou na peixaria. Se por acaso alguém lhes dirige a palavra respondem secamente, de modo a rematar uma conversa que não chegou a nascer. Mantêm firmes os lábios finos enquanto escolhem as duas maçãs, as bananas e os sete iogurtes. São mulheres secas, uma espécie estranha. Têm um olhar duro, severo sobre o mundo. Existem porque ainda não morreram. Simplesmente por isso, embora nunca tenham desejado a morte. Aliás, sentem-se muito bem como estão, embora não tenham uma honesta vontade de viver. Raramente riem e têm sempre razão. Não gostam de crianças e manifestam claramente o seu desagrado quando ouvem os seus gritos e amuos. São geralmente sindicalizadas, mas nunca foram a nenhuma manifestação. Vestem-se bem, penteiam-se melhor. Não há um único vinco na roupa que vestem nem a roupa se apresenta gasta. Ao chegarem a casa, arrumam meticulosamente as compras na despensa. Amaldiçoam a empregada por ter deixado um pano fora da gaveta e porque a mesa da sala tinha uma perna fora do tapete. Mantêm os lábios firmemente fechados. Não ouvem música, mas vêem o telejornal. Por mera rotina ligam para a mãe, para essa mesma mãe que muitas vezes lhes estragou os namoros. É a única coisa que ainda é capaz de lhes trazer uma lágrima aos olhos, essa raiva surda pela mãe. Têm bons empregos, mas nunca são convidadas para os jantares de Natal com os colegas sobretudo porque elas próprias manifestaram essa vontade. Mantêm os lábios sempre firmes, como se estivessem à beira das lágrimas que nunca derramam. Vivem num mundo silencioso em que o uso das palavras é comedido: apenas o necessário. Sentam-se direitas nas cadeiras e desconfiam sempre da afabilidade masculina. Não toleram atrasos nem qualquer coisa fora de horas. Os gestos são também eles secos, inexpressivos. A harmonia do mundo delas reside na sobriedade e no rigor. Ao lerem este texto, mantêm os lábios firmemente cerrados. Nada disto é importante, nada mesmo...