sexta-feira, novembro 24, 2006

A revolta dos mortos


São várias as personalidades da nossa praça que se revoltaram contra a TLEBS. Algumas redigem manifestos. Podem encontrar um deles em http://fgc.math.ist.utl.pt/tlebs.jpg. É sobre este que gostava de colocar algumas perguntas, realçando desde já um aspecto positivo (ainda que seja o único): finalmente, os senhores professores universitários olharam sem desdém para o ensino não universitário (apenas assim entendo que não sintam vergonha de aparecerem em pé de igualdade com duas professoras do Ensino Secundário).

Quem são estas pessoas e qual a relação que têm com a área em que a alteração promovida pela TLEBS teve efeito?
Quatro são professores catedráticos e um é professor associado. Destes, quatro são de literatura e não de linguística... Em primeiro lugar, algum deles, por uma vez que seja, deu aulas a alunos do ensino não universitário? Conhecem a realidade destes alunos? Sabem como é que se testam estes conteúdos? Alguma vez pensaram na sua importância? Em segundo lugar, a área de especialização de três não é a literatura? Em terceiro lugar, não gosto - mas aqui o problema é talvez apenas meu - de pessoas que se auto-intitulam "decanos". Dois - Graça Moura e Saramago - são escritores. Recuso-me a comentar. Restam duas professoras do Ensino Secundário que me lembram as reuniões contra o regime descritas no Angústia para o Jantar, em que "ficava bem" ter um pedreiro ou um operário reais à mesa... Ora façamos as contas: de nove abaixo-assinados, apenas sete são professores; dos sete que sobram, quatro são professores universitários de literatura e um de linguística; restam duas professoras do Ensino Secundário. Onde estão os representantes do 1º CEB, do 2º CEB e do 3º CEB (que são os níveis de ensino em que as alterações mais se fizeram sentir)?

Quais são as "consequências negativas que advirão da colocação em funcionamento" da TLEBS?
É que a TLEBS já faz parte dos programas do Ensino Secundário desde o ano lectivo de 2003/2004 e portanto as "consequências negativas" já se deveriam ter feito sentir. Além da manifesta falta de vontade de alguns professores, não há consequências negativas. Se estes senhores andassem a dar aulas nestes níveis de ensino ouviriam os alunos dizer coisas como "isto [TLEBS] é mais lógico do que antigamente" ou "isto [TLEBS] é mais fácil", ao mesmo tempo que ouviriam os colegas mais velhos dizerem "era o que faltava, andar a estudar outra vez..." (porque é este o verdadeiro problema e não outro...). As professoras do Ensino Secundário não sabiam disto?

Os abaixo-assinados sabem que, na faculdade, os futuros professores de Língua Portuguesa trabalham com esta terminologia linguística?

É porque um determinante se passou a chamar quantificador que a TLEBS é um atentado contra a "preservação da Língua como património comunicacional e estético de índole pragmática e criativa"?
Continuarmos a classificar a conjugação de determinados verbos como sendo perifrástica é a única maneira de Graça Moura e Saramago preservarem a nossa língua como património estético?

"Sem discussão pública alargada"?
Então onde é que estes senhores andavam quando os programas do Ensino Secundário, com a TLEBS, estiveram em consulta pública no site do Ministério da Educação, pelo menos um ano antes de serem homologados? Onde é que estavam as senhoras professoras do Ensino Secundário quando foram enviadas para as escolas as primeiras brochuras do projecto FALAR com a nova terminologia? Na altura, essas brochuras foram religiosamente ignoradas e a discussão dos programas, como é evidente, religiosissimamente ignorada pelos catedráticos.

"Terminologia incorrecta"?
A frase "Gosto de ti" é uma das frases, certamente, mais frequente em português. Poderão os senhores abaixo-assinados fazer a respectiva análise sintáctica à luz da antiga terminologia? A TLEBS não é perfeita, nem podia ser dada a sua dimensão, mas resolve problemas que a outra criava.

Quais são as "gravíssimas consequências para o país"?
Vamos perder a nossa identidade? Vamos perder os nosso intelectuais porque a nossa língua deixa de ser estética? Portugal sofrerá alguma imprevista catástrofe por causa da TLEBS?

É o Portugal que temos, não contribuímos, criticamos...

Quando é que mandam os vivos?

1 comentário:

Paloma disse...

E quem fala assim não é gago.