sexta-feira, novembro 03, 2006

Um post eventualmente polémico sobre determinado universo feminino

Vão ao supermercado à noite, antes de fechar, de preferência à terça-feira, que é quando têm menos gente. Levam uma lista de compras minuciosamente elaborada durante a semana. Não se distanciam um milímetro dela: nada desejam para além do necessário, e tudo o que está na lista é rigorosamente necessário. Vivem sozinhas há anos, são solteiras ou tiveram um grande desgosto amoroso no passado. Desabituaram-se do contacto com as pessoas e da partilha a que ele necessariamente obriga e por isso fingem não ouvir a sugestão (frequentemente sábia) de quem trabalha no talho ou na peixaria. Se por acaso alguém lhes dirige a palavra respondem secamente, de modo a rematar uma conversa que não chegou a nascer. Mantêm firmes os lábios finos enquanto escolhem as duas maçãs, as bananas e os sete iogurtes. São mulheres secas, uma espécie estranha. Têm um olhar duro, severo sobre o mundo. Existem porque ainda não morreram. Simplesmente por isso, embora nunca tenham desejado a morte. Aliás, sentem-se muito bem como estão, embora não tenham uma honesta vontade de viver. Raramente riem e têm sempre razão. Não gostam de crianças e manifestam claramente o seu desagrado quando ouvem os seus gritos e amuos. São geralmente sindicalizadas, mas nunca foram a nenhuma manifestação. Vestem-se bem, penteiam-se melhor. Não há um único vinco na roupa que vestem nem a roupa se apresenta gasta. Ao chegarem a casa, arrumam meticulosamente as compras na despensa. Amaldiçoam a empregada por ter deixado um pano fora da gaveta e porque a mesa da sala tinha uma perna fora do tapete. Mantêm os lábios firmemente fechados. Não ouvem música, mas vêem o telejornal. Por mera rotina ligam para a mãe, para essa mesma mãe que muitas vezes lhes estragou os namoros. É a única coisa que ainda é capaz de lhes trazer uma lágrima aos olhos, essa raiva surda pela mãe. Têm bons empregos, mas nunca são convidadas para os jantares de Natal com os colegas sobretudo porque elas próprias manifestaram essa vontade. Mantêm os lábios sempre firmes, como se estivessem à beira das lágrimas que nunca derramam. Vivem num mundo silencioso em que o uso das palavras é comedido: apenas o necessário. Sentam-se direitas nas cadeiras e desconfiam sempre da afabilidade masculina. Não toleram atrasos nem qualquer coisa fora de horas. Os gestos são também eles secos, inexpressivos. A harmonia do mundo delas reside na sobriedade e no rigor. Ao lerem este texto, mantêm os lábios firmemente cerrados. Nada disto é importante, nada mesmo...

1 comentário:

Paloma disse...

Moço perspicaz, sim senhor.
Felizmente eu sorri... ufa.