terça-feira, agosto 21, 2007

#1 Por que razão?

Por que razão está o líder do Bloco de Esquerda sempre zangado?

terça-feira, agosto 07, 2007

Mudam-se os tempos...

Há uns dias atrás, um amigo meu deparou-se com o carro, um smart fortwo, sem rodas, assente no chão. São coisas que acontecem, é verdade, mas os ladrões tiveram o cuidado de lhe deixar as porcas das rodas junto do carro. De facto, quando se trata de ladrões deste tipo, até sentimos que estamos num país civilizado - roubo-te as rodas, mas deixo-te as porcas, para que não tenhas de as comprar: não sou um gatuneco qualquer!

A mim, ontem, quando ia pegar no carro, reparei que a antena estava ligeiramente desenroscada. Quando a fui apertar, vi que afinal não era a minha antena (que era ainda a original), mas uma outra antena, dessas universais que se compram nos hipermercados e que, justamente porque universais, acabam por não funcionar na perfeição em nenhum carro. Ora aqui está mais uma prova cabal da nossa evolução civilizacional - roubo-te a antena, mas deixo-te uma outra, para que não fiques enrascado: não sou um gatuneco qualquer!

Mas o que vem a ser isto, afinal? Os ladrões agora têm consciência? Não há profissionalismo? Por este andar, vão começar a lavar a loiça quando assaltam uma casa.

Como se não bastasse, as únicas antenas que encontrei à venda foram umas em alumínio do tunning! E então sim, fiquei f*****. Agora ando com uma anteninha minúscula que é apreciada por todos os zés-pastilhas na rua. Eu sei que não vai levar muito tempo até ma roubarem, mas, por favor, quando a roubarem, ponham-me lá a antiga: é velhinha e já está a perder a cor, mas eu gosto dela assim.

quarta-feira, junho 27, 2007

Álvaro de Campos

Chegas a casa e só queres ouvir o vento a bater na janela. Nada mais que esse pequeno prazer da deslocação do ar a embater nas vidraças. Na porta da varanda, deitas-te e encostas a cara ao frio do mármore. Então, lembras-te de quando a tua mãe te aconselhava a fazer isso para acalmar a dor de dentes, ao mesmo tempo que te dava pedaços de chocolate branco, de que tu, ainda hoje, tanto gostas, ambos deliberadamente ignorando que o açúcar do chocolate aumentava a cárie que provocava a dor. Conhecias de cor os nervos do mármore da varanda e chegaste a ver nele mapas de terras longínquas com rios infindáveis que as atravessavam. Hoje, o mármore da tua varanda não tem nervos, é monotonamente apenas de uma cor. Encostas a face a esse mármore não porque te doam os dentes mas porque hoje te apetece ter a certeza de que o mundo te merece um imenso desdém. Quando te levantas, ninguém te dá chocolate branco. Sentas-te no sofá e olhas demoradamente o televisor desligado. Vêm-te à memória as vidas das personagens dos filmes, e essa ficção rasga um sorriso, um pequeno sorriso na tua face, que logo termina ao ouvires lá fora o som ordinário de alguém que deita garrafas no vidrão. “O mundo é ordinário e prosaico”, pensas tu. Ao deitar, vais pensar novamente que no dia seguinte vais ser uma pessoa diferente, que não vais chegar a casa a querer ouvir o vento porque nem sequer haverá vento mas apenas o silêncio do crepúsculo da tarde. Antes de adormeceres, passas instintivamente a língua pelo céu-da-boca e sentes claramente o sabor do chocolate branco. No momento em que abandonas o estado de vigília, formulas o desejo de que as pessoas tenham um hálito com um travo a chocolate branco quando criticam nos outros os seus próprios defeitos – talvez assim o mundo não te mereça esse imenso desdém e tu consigas ver novos mapas no mármore da porta da varanda.

segunda-feira, maio 21, 2007

Duas perguntas inocentes.

1. Por que razão sentimos nós uma leve fobia quando passamos junto de uma carrinha de transporte de prisioneiros se o próximo criminoso anda necessariamente entre nós?
2. Por que razão temos medo do outro, o que quer que seja esse outro, se o maior perigo a que nos expomos é esse mesmo medo que nos habita?

sexta-feira, abril 20, 2007

Carta aberta à Ministra da Educação

A Ministra da Educação não conhece o meu amigo Manuel, mas eu vou apresentar-lho. O Manuel frequenta este ano lectivo o 7º ano de escolaridade. Como quase todos os miúdos da idade dele, adora jogos de computador e não gosta de gramática. Confessou-me no outro dia que achava "aquilo tudo uma confusão". Infelizmente, penso que não anda longe da verdade.

O Manuel começou a aprender gramática quando andava no 3º ano. Estávamos no ano lectivo de 2002/2003, um ano antes da entrada em vigor dos novos programas de Português para o Ensino Secundário, os quais incluem os termos da TLEBS. Aprendeu gramática de acordo com uma nomenclatura gramatical aprovada por uma portaria de 1967, a qual, como afirma uma portaria do seu Ministério com a data de 2004, deixou "há muito de constituir referência para a solução de problemas". Humildemente, acho que essa nomenclatura de 1967 é de facto lacunar e problemática: sabia que consegue encontrar, nos manuais e gramáticas que seguem essa nomenclatura, 3 (!) definições diferentes do que é o predicado de uma frase? Não sabia? Digo-lhe ainda que a prova de aferição nacional do 6º ano do ano lectivo passado tinha uma pergunta que incidia sobre este conteúdo e que os critérios de correcção eram tão rigorosos que aceitavam qualquer uma das três definições, ainda que elas fossem - como aliás são - contraditórias. Mas voltemos ao Manuel, que passou entretanto para o 4º ano (ano lectivo de 2003/2004, o primeiro em que a TLEBS surge nos programas do Ensino Secundário), continuando a aprender a gramática de 1967.

O Manuel passou para o 5º ano em 2004/2005. A professora de Português continuou a ensinar-lhe a gramática de 1967, como era de esperar. Mas eis que, em pleno dia da consoada, a professora do Manuel toma conhecimento da Portaria 1488/2004 de 24 de Dezembro, e o bacalhau já não lhe soube bem. É que esta portaria, Senhora Ministra, dizia-lhe, entre outras coisas, que era aprovada a experiência pedagógica da TLEBS a partir do ano lectivo de 2004/2005 (repare que estávamos no final do 1º período desse ano lectivo) e que era revogada a portaria de 1967. Dado que o Ministério não enviou materiais para a escola (viria a acontecer apenas em Março de 2005), a professora do Manuel não sabia como trabalhar a TLEBS, e portanto suspendeu durante algum tempo o ensino do Funcionamento da Língua. Quando finalmente conseguiu ter alguns materiais elaborados (note, Senhora Ministra, que não havia na altura qualquer gramática escolar sobre a TLEBS), já estávamos em Abril. Ainda assim, ensinou alguns conteúdos da TLEBS ao Manuel, não sem antes lhe ter explicado que devia esquecer alguns conceitos já aprendidos, pois estes estavam desactualizados. O Manuel passou para o 6º ano em 2005/2006 e a professora começa, logo desde o início do ano lectivo, a ensinar a TLEBS. Mas um mês e meio depois do início das aulas, a Senhora Ministra publica outra portaria, a qual vem novamente estragar os planos da professora do Manuel. É que diz essa portaria que no ano lectivo de 2005/2006 nem todas as escolas iriam ensinar a TLEBS, mas apenas algumas selecionadas pelo seu Ministério. Má sorte do Manuel - a escola dele não foi seleccionada, logo teve de voltar à terminologia de 1967, ainda que, de acordo com essa portaria, no ano lectivo seguinte fosse aprender a TLEBS, pois esta seria generalizada nesse ano lectivo.

Este ano lectivo, o Manuel entrou para o 7º ano. Tem um manual com a TLEBS, uma gramática com a TLEBS e uma nova professora que, conhecendo esta portaria, preparou todos os materiais sobre a TLEBS. Tudo correu bem até Novembro, uma altura em que, sem se saber porquê, alguns senhores conhecidos contestam a TLEBS e o seu ensino, ainda que nunca tenham tido manuéis à frente para ensinar. Apesar da confusão, entrevistas nos jornais e na televisão não fazem lei (felizmente), e tudo continua a correr bem. É então que a Senhora Ministra publica em Abril uma portaria que suspende o ensino da TLEBS no Ensino Básico, o que, em termos práticos, significa que o Manuel vai voltar à nomenclatura de 1967 durante os próximos dois anos, para no 10º ano voltar à TLEBS. Está confusa, Senhora Ministra? O Manuel também. Eu faço-lhe uma síntese do percurso do Manuel para se perceber o problema dele:

2002/2003 - 3º ano de escolaridade - terminologia de 1967.
2003/2004 - 4º ano de escolaridade - terminologia de 1967.
2004/2005 - 5º ano de escolaridade - terminologia de 1967 até ao Natal, TLEBS no último período.
2005/2006 - 6º ano de escolaridade - TLEBS até Novembro, terminologia de 1967 entre meados de Novembro e o final do ano lectivo.
2006/2007 - 7º ano de escolaridade - TLEBS.
2007/2008 - 8º ano de escolaridade - terminologia de 1967.
2008/2009 - 9º ano de escolaridade - terminologia de 1967.
2009/2010 - 10º ano de escolaridade - TLEBS.
2010/2011 - 11º ano de escolaridade - TLEBS.
2011/2012 - 12º ano de escolaridade - TLEBS.

Senhora Ministra, o Manuel até tem razão para achar que tudo isto é muito confuso, não acha? Sabe quem ficou a ganhar com isto tudo? Aqueles que, voltando as costas à discussão científica e à evolução, NUNCA ensinaram TLEBS, apesar de ela estar legislada. NUNCA, Senhora Ministra. Sendo Ministra da Educação, tem também responsabilidades educativas. Saberá melhor que eu que a educação pelo exemplo é das mais efectivas. Pense bem no exemplo que acaba de dar ao Manuel. Uma pergunta final, que podia ser feita pelo Manuel se os jogos de computador não fossem mais sensatos que os legisladores do nosso país: se a terminologia de 1967 foi revogada em 2004 e se a portaria de Abril de 2007 suspende a TLEBS, que gramática é que se vai ensinar ao Manuel?


segunda-feira, abril 16, 2007

SLB

Três letras, um universo. A partir de hoje, escrevo sobre o nosso SLB aqui.

domingo, março 25, 2007

Se tivesses de ser um, qual escolherias?


Imaginem, por absurdo, que tinham de ser um dos dois. Na pele de qual dos dois queriam estar?

quarta-feira, março 21, 2007

Não sei o que é melhor...

... se o poema de José Miguel Silva, se a música de A Naifa. Podem lê-lo e ouvi-la aqui. Depois decidam.

Queixas de um utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum

josé miguel silva

quinta-feira, março 15, 2007

A frágil existência dos oxímoros.

Um destes dias creio ter pensado, depois de acordar, que os oxímoros não existem. Diz-me a Biblos que o oxímoro é a "união sintáctica, em frases ou expressões, de conceitos contraditórios [...]; é a expressão sintética de um paradoxo intelectual". Dá como exemplo esta enciclopédia alguns versos de Camões, como por exemplo "Amor é um fogo que arde sem se ver". De facto, os fogos que ardem vêem-se, mas não é menos verdade que o Amor não é um fogo. Logo, se temos de fazer um entendimento metafórico de "Amor é um fogo", a expressão não é contraditória, mas lógica: Amor (o sentimento amoroso) é um fogo (é um sentimento arrebatador, apaixonado) que arde (que existe dentro de nós, que nos arrebata) sem se ver (sem ser visível na nossa aparência física). O oxímoro tem assim uma frágil existência, pois anula-se no exacto momento em que se deixa interpretar. Mesmo a expressão "contentamento descontente", quando interpretada, deixa de ser um oxímoro. Acho que começo a compreender a razão por que gosto tanto de alguns filmes de David Lynch, essas autênticas acumulações de oxímoros que não se deixam interpretar: ao manterem-nos longe, nessa espécie de inacessibilidade platónica, prolongam o prazer de bem sentir o oxímoro. Ah, como eu amo essa frágil existência dos oxímoros.

terça-feira, março 13, 2007

A frase do dia

Perdoe-me a frontalidade com que lhe digo isto, mas essa senhora é uma ignorante!

A mim, perdoem-me os poucos mas amáveis leitores deste blog a private...

sábado, março 10, 2007

Por 8 €, não precisa de abrir o livro, lê a contracapa


Aproximam-se os exames, caríssimos estudantes: leiam os sábios conselhos.

(perdoem-me os vendedores desta feira do livro, cujo pedido até percebo, mas achei-lhe uma certa piada).

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

No dia do teu aniversário.

Fazes anos, hoje. Como se não bastasse esta chuva estupidamente miudinha, os sapatos molhados, o penteado desfeito, os papéis da declaração do IRS manchados, ainda é o dia do teu aniversário. 34, pensas tu. 34 anos. Tiveste de receber os telefonemas de pessoas de quem já nem te lembravas. Pessoas cuja agenda do telemóvel se encarregou de avisar diligentemente que era o dia do teu aniversário, indicando o teu nome, a tua idade e o teu número de telefone. Algumas dessas pessoas também não sabem bem quem és tu, e então mandam apenas uma mensagem. Não respondes a nenhuma e todos os anos fazem o mesmo. Já chegaste a pensar que é um qualquer programa automático, mas sabes que isso apenas acontece com sites que enviam religiosa e automaticamente um e-mail assinado por uma pessoa que conheces para te dar os parabéns. Aconteceu-te o ano passado descobrires este sistema quando recebeste aquele macabro e-mail assinado pelo teu tio Júlio, a cujo funeral tinhas ido havia já três meses. Nesse dia bloqueaste os e-mails vindos desse site e poupaste o trabalho de ter de apagar dezenas de e-mails inúteis.

Como o Campos, estás no tempo em que já não festejam o teu aniversário, o que consideras, ao contrário do Campos, uma dádiva. Chegas e casa e bates a porta. Conheces de cor o som do bater da porta a ecoar pelo corredor fora e a morrer ao fundo, na despensa. Hoje quando entraste sentiste um calafrio, mas afastaste a hipótese de ser a saudade de qualquer coisa antes de que o calafrio chegasse a ser efectivamente a saudade de qualquer coisa. Tu sabes que disseram que não é bom teres as fotografias dele em cima dos móveis. 34 anos, 34 anos. Até a porteira do teu prédio sabia.

Desligas os telefones e viras - sem saberes porquê - todas as molduras com as fotografias dele para baixo. Pensas que 34 anos é uma boa idade para enterrar os teus mortos. Ao contrário de Penélope, achas que já não vale a pena esperar. Talvez compres uma cama nova, mais pequena, para que não te sintas nela como uma ilha no mar. Não jantas e deitas-te vestida. É o teu presente de aniversário. Antes de adormeceres, pensas duas vezes no convite que o Carlos te fez há duas semanas. Perguntas-te se o filme ainda estará no cinema e prometes-te que se amanhã, quando acordares, pensares uma terceira vez no convite do Carlos, o vais aceitar. Talvez quando fores a caminho do cinema com o Carlos o mundo não se desfaça em lágrimas. Talvez até nasça um sol. Talvez. E então pensarás que é melhor não trocar ainda a cama, mas que valerá a pena deitar fora com as fotografias dele a corda que guardas há 8 anos na última gaveta do aparador.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Há coisas fantásticas, não há?

Soube por estes dias que o aniversário da TVI coincide com o dia de Carnaval. Há coincidências fantásticas, não há?

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

As pessoas existem?

Numa conversa de final de jantar temperada com Alento (notável tinto alentejano, não superior, todavia, ao Chaminé) e um queijo fresco, perguntou-me um amigo: não tens noção de que as pessoas não existem, às vezes? Explicou-me depois que por vezes sente que há alguns papéis sociais à sua volta que são ocupados - por mero acaso - por esta ou aquela pessoa, e que, no caso de essa pessoa não estar disponível - definitiva ou temporariamente -, é substituída por outra com funções semelhantes. Na altura respondi que talvez seja a nossa tendência inata para classificar e catalogar as pessoas à luz do que conhecemos, mas agora parece-me uma resposta pobre. Não terá Camões e outros antes e depois dele proposto o mesmo? É que quer se tratasse da escrava Bárbara quer se tratasse da inacessível Laura, o que importava realmente era o próprio sentimento amoroso e não a pessoa. Justamente como se Bárbara e Laura não existissem. Justamente.

domingo, fevereiro 04, 2007

Body Rice


Fujam quando virem este título. Fujam!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Salazar e Cunhal

Se Salazar e Cunhal são as maiores personalidades portuguesas de todos os tempos para os portugueses (ainda que seja para os portugueses-que-têm-telefone-e-muito-dinheiro-para-pagar-as-chamadas), apenas posso dizer que temos o país que merecemos. Dois extremistas que quiseram fechar o país ao exterior? Quem somos nós?
É nestas alturas que eu me interrogo: mando o meu currículo para a Guatemala ou para a Micronésia?

Interrupção Voluntária da Gravidez

Sou contra o aborto, como acho que é qualquer pessoa sensata. Sou a favor da despenalização do aborto, como acho que deveria ser qualquer pessoa sensata. Sou contra o aborto porque, independentemente do que considerarmos ser um feto, um feto é sempre uma vida em potência. Sou a favor da despenalização do aborto sobretudo porque, sendo uma questão tão delicada e íntima, a lei actual não permite que as pessoas tomem decisões por si, individualmente: o voto no SIM neste referendo não impõe a minha vontade às outras pessoas, o voto no NÃO impõe-me a vontade das outras pessoas.

domingo, janeiro 28, 2007