quarta-feira, fevereiro 28, 2007

No dia do teu aniversário.

Fazes anos, hoje. Como se não bastasse esta chuva estupidamente miudinha, os sapatos molhados, o penteado desfeito, os papéis da declaração do IRS manchados, ainda é o dia do teu aniversário. 34, pensas tu. 34 anos. Tiveste de receber os telefonemas de pessoas de quem já nem te lembravas. Pessoas cuja agenda do telemóvel se encarregou de avisar diligentemente que era o dia do teu aniversário, indicando o teu nome, a tua idade e o teu número de telefone. Algumas dessas pessoas também não sabem bem quem és tu, e então mandam apenas uma mensagem. Não respondes a nenhuma e todos os anos fazem o mesmo. Já chegaste a pensar que é um qualquer programa automático, mas sabes que isso apenas acontece com sites que enviam religiosa e automaticamente um e-mail assinado por uma pessoa que conheces para te dar os parabéns. Aconteceu-te o ano passado descobrires este sistema quando recebeste aquele macabro e-mail assinado pelo teu tio Júlio, a cujo funeral tinhas ido havia já três meses. Nesse dia bloqueaste os e-mails vindos desse site e poupaste o trabalho de ter de apagar dezenas de e-mails inúteis.

Como o Campos, estás no tempo em que já não festejam o teu aniversário, o que consideras, ao contrário do Campos, uma dádiva. Chegas e casa e bates a porta. Conheces de cor o som do bater da porta a ecoar pelo corredor fora e a morrer ao fundo, na despensa. Hoje quando entraste sentiste um calafrio, mas afastaste a hipótese de ser a saudade de qualquer coisa antes de que o calafrio chegasse a ser efectivamente a saudade de qualquer coisa. Tu sabes que disseram que não é bom teres as fotografias dele em cima dos móveis. 34 anos, 34 anos. Até a porteira do teu prédio sabia.

Desligas os telefones e viras - sem saberes porquê - todas as molduras com as fotografias dele para baixo. Pensas que 34 anos é uma boa idade para enterrar os teus mortos. Ao contrário de Penélope, achas que já não vale a pena esperar. Talvez compres uma cama nova, mais pequena, para que não te sintas nela como uma ilha no mar. Não jantas e deitas-te vestida. É o teu presente de aniversário. Antes de adormeceres, pensas duas vezes no convite que o Carlos te fez há duas semanas. Perguntas-te se o filme ainda estará no cinema e prometes-te que se amanhã, quando acordares, pensares uma terceira vez no convite do Carlos, o vais aceitar. Talvez quando fores a caminho do cinema com o Carlos o mundo não se desfaça em lágrimas. Talvez até nasça um sol. Talvez. E então pensarás que é melhor não trocar ainda a cama, mas que valerá a pena deitar fora com as fotografias dele a corda que guardas há 8 anos na última gaveta do aparador.

3 comentários:

St disse...

Muito bom. Parece que estamos a ver todas as cenas. Parabéns ao autor.

St disse...

Muito bom. Parece que estamos a ver todas as cenas. Parabéns ao autor.

FL disse...

Gostei. Deste post em particular e do blog em geral... Será que ser feliz é uma opção? Teimo em acreditar que sim.