quinta-feira, março 15, 2007

A frágil existência dos oxímoros.

Um destes dias creio ter pensado, depois de acordar, que os oxímoros não existem. Diz-me a Biblos que o oxímoro é a "união sintáctica, em frases ou expressões, de conceitos contraditórios [...]; é a expressão sintética de um paradoxo intelectual". Dá como exemplo esta enciclopédia alguns versos de Camões, como por exemplo "Amor é um fogo que arde sem se ver". De facto, os fogos que ardem vêem-se, mas não é menos verdade que o Amor não é um fogo. Logo, se temos de fazer um entendimento metafórico de "Amor é um fogo", a expressão não é contraditória, mas lógica: Amor (o sentimento amoroso) é um fogo (é um sentimento arrebatador, apaixonado) que arde (que existe dentro de nós, que nos arrebata) sem se ver (sem ser visível na nossa aparência física). O oxímoro tem assim uma frágil existência, pois anula-se no exacto momento em que se deixa interpretar. Mesmo a expressão "contentamento descontente", quando interpretada, deixa de ser um oxímoro. Acho que começo a compreender a razão por que gosto tanto de alguns filmes de David Lynch, essas autênticas acumulações de oxímoros que não se deixam interpretar: ao manterem-nos longe, nessa espécie de inacessibilidade platónica, prolongam o prazer de bem sentir o oxímoro. Ah, como eu amo essa frágil existência dos oxímoros.

2 comentários:

Pedro disse...

Agora reparo que isto ficou demasiado intelectual, e por isso quero deixar aqui dois oxímoros do mundo real: o Tony Carreira é convidado da Judite de Sousa no seu programa televisivo, e o Sporting tem no seu lema a palavra "Glória". Isto sim são oxímoros (cá agora Camões e Lynch! Pedante!).

Paloma disse...

Tu de facto esmagas-me. Tolhes-me a pouca (e estou a ser hiperbólica) mobilização criativa. (Nõa estou a ser irónica, só pra que se saiba...)