quarta-feira, junho 27, 2007

Álvaro de Campos

Chegas a casa e só queres ouvir o vento a bater na janela. Nada mais que esse pequeno prazer da deslocação do ar a embater nas vidraças. Na porta da varanda, deitas-te e encostas a cara ao frio do mármore. Então, lembras-te de quando a tua mãe te aconselhava a fazer isso para acalmar a dor de dentes, ao mesmo tempo que te dava pedaços de chocolate branco, de que tu, ainda hoje, tanto gostas, ambos deliberadamente ignorando que o açúcar do chocolate aumentava a cárie que provocava a dor. Conhecias de cor os nervos do mármore da varanda e chegaste a ver nele mapas de terras longínquas com rios infindáveis que as atravessavam. Hoje, o mármore da tua varanda não tem nervos, é monotonamente apenas de uma cor. Encostas a face a esse mármore não porque te doam os dentes mas porque hoje te apetece ter a certeza de que o mundo te merece um imenso desdém. Quando te levantas, ninguém te dá chocolate branco. Sentas-te no sofá e olhas demoradamente o televisor desligado. Vêm-te à memória as vidas das personagens dos filmes, e essa ficção rasga um sorriso, um pequeno sorriso na tua face, que logo termina ao ouvires lá fora o som ordinário de alguém que deita garrafas no vidrão. “O mundo é ordinário e prosaico”, pensas tu. Ao deitar, vais pensar novamente que no dia seguinte vais ser uma pessoa diferente, que não vais chegar a casa a querer ouvir o vento porque nem sequer haverá vento mas apenas o silêncio do crepúsculo da tarde. Antes de adormeceres, passas instintivamente a língua pelo céu-da-boca e sentes claramente o sabor do chocolate branco. No momento em que abandonas o estado de vigília, formulas o desejo de que as pessoas tenham um hálito com um travo a chocolate branco quando criticam nos outros os seus próprios defeitos – talvez assim o mundo não te mereça esse imenso desdém e tu consigas ver novos mapas no mármore da porta da varanda.

Sem comentários: